Imunidade esquecida ajuda a frear mpox na África, mas vírus circula sem ser visto
Estudo com adultos na Nigéria revela que a proteção herdada da vacina contra a varíola ainda reduz a transmissão da mpox, enquanto infecções silenciosas passam despercebidas pela vigilância oficial.

Um estudo publicado nesta semana na revista Nature Communications indica que a imunidade residual deixada pela vacinação contra a varíola — encerrada globalmente em 1980 — continua a moldar a disseminação da mpox (antiga varíola dos macacos) na África Ocidental. Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta para um fenômeno preocupante: a circulação silenciosa do vírus em pessoas sem sintomas, fora das estatísticas oficiais.
A análise envolveu 176 adultos saudáveis na Nigéria, entre profissionais de saúde e moradores da comunidade geral, acompanhados entre 2021 e 2023. Os pesquisadores identificaram que 13,6% apresentavam anticorpos compatíveis com exposição ao vírus da mpox, mesmo sem histórico clínico da doença.
“Esses dados sugerem que a mpox pode estar se espalhando de forma muito mais ampla do que os sistemas de vigilância conseguem captar”, afirma o virologista Ravindra K. Gupta, da Universidade de Cambridge, um dos autores do estudo.
Proteção do passado
O fator decisivo para a presença de anticorpos foi a idade. Entre os participantes nascidos antes de 1980, período em que a vacina contra a varíola ainda era aplicada, 34% apresentaram soropositividade para mpox. Já entre os nascidos depois desse ano, a taxa caiu para apenas 4%.
Segundo os autores, isso reforça evidências de que a vacina contra a varíola confere imunidade cruzada duradoura contra outros ortopoxvírus, grupo ao qual a mpox pertence. “Mesmo após quatro décadas, a resposta imunológica permanece ampla e funcional”, escreve a equipe liderada por Adam Abdullahi, do Instituto Nigeriano de Pesquisa Médica.
No entanto, a proteção não é uniforme. O próprio estudo mostra que apenas cerca de um terço dos adultos mais velhos apresentava níveis robustos de anticorpos, reflexo da baixa e desigual cobertura vacinal durante as campanhas da Organização Mundial da Saúde nos anos 1960 e 1970, que variou de 7% a 60% na região.
Infecções invisíveis
O dado mais alarmante surge na análise longitudinal. Entre 153 participantes acompanhados por cerca de nove meses, 5 pessoas (3%) apresentaram aumento expressivo de anticorpos, indicando exposição recente ao vírus, sem que nenhuma delas relatasse sintomas compatíveis com mpox.
“Isso aponta para infecções subclínicas ou muito leves, que não entram nas estatísticas oficiais”, diz Abdullahi. Em termos práticos, significa que o vírus pode circular por meses ou anos sem ser detectado, especialmente em países com vigilância epidemiológica limitada.
Estudos semelhantes na Europa encontraram resultados comparáveis: taxas de soroconversão assintomática de 6% na Espanha, 6,5% na França e 1,3% na Bélgica, reforçando que o fenômeno não é exclusivo da África.
Epidemia lenta, mas persistente
Ao combinar dados sorológicos com análises genômicas de 105 sequências do vírus na Nigéria, os pesquisadores observaram que a mpox apresenta crescimento lento, com tempo de duplicação estimado em 2,5 anos. O número reprodutivo (Rt) permanece próximo de 1, indicando transmissão limitada e frequentes “becos sem saída”, quando o vírus não consegue se espalhar adiante.
Para os autores, esse padrão é explicado justamente pela imunidade herdada da vacinação contra a varíola, que atua como uma barreira parcial à disseminação em larga escala.
Desafio para a saúde pública
Apesar disso, o estudo alerta que a queda da imunidade populacional entre os mais jovens cria um cenário propício para surtos localizados. “A combinação de indivíduos imunologicamente ingênuos e infecções silenciosas representa um desafio real para a saúde pública”, afirma Gupta.
Os pesquisadores defendem o uso de testes sorológicos multiplex, capazes de detectar múltiplos anticorpos ao mesmo tempo, como ferramenta estratégica para vigilância em países de baixa renda. Sem isso, alertam, a mpox pode continuar circulando “abaixo do radar”.
Mais informações
Abdullahi, A., Omah, I., Kassanjee, R. et al. Evidência sorogenômica de exposição oculta ao mpox em adultos nigerianos saudáveis. Nat Commun 17 , 482 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68335-1